segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Cena Gótica Brasileira #6 - Cinema de Horror Brasileiro

Olá minhas Ladys e Lords do blog.
Dei uma parada inaceitável com as postagens do meu próprio projeto sobre a Cena Gótica Brasileira, IMPERDOÁVEL, EU  SEI! Mas estou aqui hoje com um tema muito interessante e de certa forma muito pouco abordado na atualidade até mesmo pelo fato de ser pouquíssimo explorado, infelizmente! Contudo resolvi retomar com uma coisa que todo mundo aqui de certa forma gosta.

CINEMA  DE HORROR BRASILEIRO.

“Por que não um dos nossos para filmar o infilmável?”, perguntava Rogério Sganzerla no prefácio do livro Maldito, que trata da vida e da obra de José Mojica Marins o maior e mais famoso cineasta brasileiro a se dedicar ao gênero horror. 
Essa se tornou uma pergunta crucial para o trabalho do tão conhecido Zé do Caixão, pois foi daí que ele se dedicou a pesquisar, tanto narrativas quanto construções visuais interessantes na temática de horror para dar inicio no cinema brasileiro. Por que não, já que nosso país é tão rico em histórias bizarras e sobrenaturais, tanto nas cidades quando nos mais remotos interiores? Uma ótima ideia para um "conterrâneo" se dedicar ao tal gênero não é mesmo?



Não podemos dizer que o gênero é raro em nosso país, já que aqui se filma poucos e estes filmes já não são tão divulgados e exibidos assim. Por isso só da pra dizer que o gênero é muito pouco procurado em comparação com os outros gêneros a nível nacional.

Nesse caso, o resultado é revelador: em 2002, Antonio Leão da Silva Neto, em seu Dicionário de filmes brasileiros, contabilizava que, até o começo daquele ano, 3.415 filmes de longa-metragem haviam sido finalizados no Brasil e, dentre eles, apenas duas dezenas eram classificadas pelo autor como sendo de horror ou de terror – em sua maioria, obras de Mojica. Só a título de comparação, o gênero policial, por vezes próximo do horror por seu caráter violento, era identificado no mesmo dicionário em mais de 250 obras.

Mas há uma contradição maior ainda, o gênero de horror é um dos mais procurados pela mídia no nosso país, desde programas de tv, rádio, contudo toda a audiência vai para os filmes, livros e histórias estrangeiras, já que a divulgação e o investimento é muito maior em cima do assunto, muitas vezes se tornando até clássicos.
"Num exame dos filmes brasileiros a partir de suas sinopses, encontram-se, no mesmo dicionário já citado de Silva Neto, mais de uma centena de títulos claramente ligados ao horror, mas que não foram identificados dessa maneira e que tampouco foram reunidos e examinados sob esta perspectiva. Tais títulos nos remetem a experiências industriais e estéticas tão diferentes como o cinema dos estúdios paulistas, chanchadas, o cinema erótico – obras pouco conhecidas de autores consagrados –, além de todo um universo cultural de produções independentes que nem sempre é mencionado nos estudos de cinema brasileiro."
Como observa Lúcio Piedade, autor da dissertação de mestrado A cultura do lixo, o horror cinematográfico brasileiro, apesar de pouco lembrado, é representativo e expressivo. Segundo ele, o caráter híbrido desse cinema talvez configure um problema se quisermos categorizá-lo, pois, apesar de se apropriar de parte dos clichês mais marcantes do horror canônico, jamais se integrou aos paradigmas já estabelecidos da cinematografia mundial do gênero ou dela se tornou vertente. Pelo contrário: acabou estabelecendo suas próprias e significativas marcas, graças a iniciativas isoladas e à margem da linha de frente do cinema brasileiro.
Para a maioria do público brasileiro, o cinema de horror brasileiro está vinculada apenas aos filmes de Mojica, que se eternizou como o coveiro psicopata Zé do Caixão, em seu primeiro longa-metragem brasileiro a se declarar “de terror”: À meia-noite levarei sua alma, realizado em São Paulo, em 1963.
Obvio que com seu primeiro filme ele se tornou uma lenda e fenômeno, contudo muitos esquecem de outras obras que também merecem crédito há muito tempo.
Também é obvio que não dá pra comparar nossos filmes com os produzidos em  Hollywood, devendo assim citar diferenças enormes como verba disponibilizada e acumulada no decorrer da história, uma base sólida de linhagem de filmes, o problema cultural de cultuar outros países esquecer da nossa própria cultura, e também o projeto estético e político dominante dentro do cinema brasileiro na época, onde a elite de cineastas que se opunha aos modelos impostos pela poderosa indústria de Hollywood.
Entre os estudiosos do chamado “horror artístico”, esse gênero narrativo surgiu na Europa, na segunda metade do século XVIII, num impulso de desafio à visão iluminista do mundo. As histórias de horror surgidas naquele momento teriam, assim, o objetivo de readaptar o pensamento mágico e as imagens medievais às formas do irracionalismo romântico nascente, buscando representar e despertar sentimentos de pavor, aversão e perplexidade diante de fenômenos inexplicáveis pela natureza ou pela razão.
Observando-se os nossos filmes sob a perspectiva artística, podemos dizer que o horror é, sim, bastante presente. Pareceria até estranho que não o fosse, pois, como aponta Lúcio Piedade, se olharmos para nossas narrativas tradicionais, veremos que boa parte delas versa sobre os mistérios que envolvem a vida e a morte, os embates entre as forças do bem e do mal, e a interferência de elementos sobrenaturais ou irracionais como fatores determinantes no mundo cotidiano – elementos que estão na raiz do “horror artístico”.

† TOP 13 FILMES DE HORROR NACIONAIS

1. À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA (1964), de José Mojica Marins:



O maior clássico do horror brasileiro marca o início da saga do agente funerário Zé do Caixão, que espalha o terror em busca da mulher ideal que lhe dará o filho perfeito, sua única crença da continuidade do sangue. Ímpio, blasfemo, agressivo, destemido, primitivo, genial: Mojica mostrou a que veio, popularizou o horror e se uniu aos cineastas Ozualdo R. Candeias e Luís Sérgio Person em Trilogia de Terror, de 1968.

2. BARÃO OLAVO, O HORRÍVEL (1970), de Julio Bressane



A repercussão imediata do horror de Mojica foi na obra do pessoal do cinema experimental carioca, que subverteu e reinventou as regras e clichês do horror em estética de Nouvelle Vague e espírito de Tropicália. Julio Bressane talvez seja o mais representativo, mas seus colegas Rogério Sganzerla, com Copacabana Mon Amour, e Elyseu Visconti Cavalleiro, com Os Monstros de Babaloo, também são essenciais.

3. ENIGMA PARA DEMÔNIOS (1975), de Carlos Hugo Christensen:



Cineasta argentino radicado no Brasil desde a década de cinquenta, Christensen esbanja apuro técnico neste e em outro exemplar de terror barroco: A Mulher do Desejo (A Casa das Sombras), de 1977. Ambos filmados em Ouro Preto, em Minas Gerais, aproveitam a arquitetura histórica da cidade para narrar histórias envolvendo possessões demoníacas, rituais de magia negra, flores amaldiçoadas e mansões sombrias.

4. EXCITAÇÃO (1977), de Jean Garrett



A Boca do Lixo paulistana foi de onde saíram os mais representativos exemplares do cinema de gênero brasileiro; filmes populares e assumidamente derivativos de modelos estrangeiros: faroeste, policial, ação, terror. O português Jean Garrett talvez tenha sido o mais sofisticado dos diretores dessa geração: sua abordagem do sobrenatural e do fantástico renderam filmes indispensáveis como Excitação e A Força dos Sentidos, de 1980.

5. AS FILHAS DO FOGO (1979), de Walter Hugo Khouri


O paulista Walter Hugo Khouri é conhecido pela preocupação existencial de seus personagens; em geral seu cinema é considerado de um erotismo elegante, mas Khouri também se aventurou pelo horror, como nesta mórbida história de fantasmas, na qual vozes e aparições do passado aterrorizam duas moças que estão sozinhas num casarão no campo. Khouri dirigiu também o melancólico e perturbador O Anjo da Noite, de 1974.

6. O PASTELEIRO [AQUI, TARADOS] (1981), de David Cardoso



É novamente na Boca do Lixo que vamos buscar o exemplo mais impressionante de cinema de horror extremo feito no Brasil, no episódio O Pasteleiro, dirigido por David Cardoso para o longa erótico Aqui Tarados, com roteiro de Ody Fraga e atuações memoráveis de John Doo e Alvamar Taddei. Um conto de horror onde estupro, sodomia, necrofilia e canibalismo se combinam com sexo doentio, humor negro e esquartejamento explícito.

7. AS SETE VAMPIRAS (1986), de Ivan Cardoso



O carioca Ivan Cardoso resgatou o deboche das chanchadas, combinou com os filmes baratos de monstros da Universal e Hammer e o visual cafona dos seriados de aventura, temperou com marchinhas de carnaval e erotismo e criou o “terrir”, o terror com riso. Sua parceria com o roteirista Rubens Francisco Lucchetti rendeu filmes adoráveis e hilários. Ivan também dirigiu o vampiro tropicalista Nosferatu no Brasil, em 1971.

8. RITUAL MACABRO / THE RITUAL OF DEATH (1991), de Fauzi Mansur




Fauzi Mansur é um dos cineastas que mais se aventurou pelo horror no Brasil, flertando tanto com o humor negro inconsequente quanto o terror “kardecista” mais pesado. No final da década de oitenta e início de noventa, com a falência do cinema comercial brasileiro, Fauzi realizou dois exemplares de horror sanguinolento para lançar no mercado exterior, ambos falados em inglês: Satanic Attraction (1989) e The Ritual of Death (1991).

9. O XANGÔ DE BAKER STREET (2001), de Miguel Faria Jr.



O cinema da Retomada buscou uma aproximação maior da estética do cinema comercial da época, com mais formalidade técnica e diretores vindo da publicidade. Este longa-metragem coproduzido por Brasil e Portugal combina comédia e cenas de horror numa adaptação do livro de Jô Soares, sobre uma hipotética passagem do assassino em série Jack, o Estripador pelo nosso país, investigado pelo detetive particular Sherlock Holmes.

10. AMOR SÓ DE MÃE (2002), de Dennison Ramalho



Este curta-metragem de vinte minutos é o mais impressionante exemplar do horror nacional recente. Ao traduzir para o universo do terror satânico a popular canção “Coração Materno”, de Vicente Celestino, o diretor Dennison Ramalho concebe imagens de enorme impacto, elevando o patamar do gênero ao mesmo tempo que reverencia seu padrinho artístico José Mojica Marins, de quem compartilha a protagonista, a sempre intensa Débora Muniz.

11. ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008), de José Mojica Marins



Mais de quarenta anos se passaram desde o segundo capítulo da saga de Zé do Caixão, com Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, de 1967, quando Mojica pôde voltar às telas com a conclusão de sua trilogia. Colocado em liberdade depois de décadas encarcerado, Zé do Caixão encontra uma cidade tomada pelo caos, pela violência, pela corrupção e pelo autoritarismo. Um filme-testamento que transpôs Zé do Caixão para o novo milênio.

12. MANGUE NEGRO (2008), de Rodrigo Aragão



O capixaba Rodrigo Aragão, apaixonado por monstros e efeitos especiais, rompeu a barreira do cinema independente ao colocar em prática seu estilo exagerado que combina humor, nojeira e banhos de sangue. Mangue Negro é o primeiro épico de zumbis feito no país e mostrou ao resto do mundo a produção brasileira feita com empenho, determinação e pouco dinheiro. A saga prosseguiu com Mar Negro, de 2013.

13. QUANDO EU ERA VIVO (2014), de Marco Dutra



Este talvez tenha sido o primeiro longa-metragem da safra recente a ser aceito naturalmente por público e crítica – ambos pouco acostumados com o conceito de gênero no cinema nacional – como um indício de que é viável se fazer filme de terror no Brasil. Marco Dutra – muitas vezes em parceria com Juliana Rojas, como em Trabalhar Cansa, de 2011 – combina de maneira habilidosa situações dramáticas, crítica social e momentos apavorantes.

Então gente espero que tenham gostado da postagem. Por que adorei sair procurando filmes diferentes pra assistir. Admito que ainda não assisti todos mas em breve pretendo assistir tudin!


Beijos e até a próxima Postagem!


Fontes: 
Portal Brasileiro do Cinema
SESC - SP

2 comentários:

  1. Nunca gostei muito de terror nacional. Mas, tem dois aí que não assisti e vou assistir pra poder saber se vou gostar.

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    1. Eu sou suspeita pra falar, pq eu gosto de algumas coisas toscas nas cenas, acho bem interessante! Mas assista mesmo, os filmes são bons ;)

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